Português e «pretuguês»

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Para onde vai a Língua Portuguesa? Devemos continuar utilizando o português europeu como modelo de bom uso do idioma ou já é hora de abrir passo às variedades cada vez mais predominantes na lusofonia global?

Uma vez mais, começamos fazendo um esclarecimento aos leitores hispanofalantes do EL TRAPEZIO: em português, preto é uma cor; é o mesmo que negro. Portanto, “pretuguês” é um trocadilho que funde as palavras preto e português.

O neologismo (não tão novo assim) foi criado pela admirável antropóloga brasileira Lélia Gonzalez. O termo, em sua origem, faz referência à influência de idiomas africanos no português brasileiro, em suas camadas lexicais, sintáticas, prosódicas, rítmicas e fonéticas. Essa influência está presente também, é claro, no português da África. Hoje, constatamos que esse neologismo pode ainda ser aplicado à evidente maioria de falantes de português no mundo. A língua de Camões é – atualmente e cada vez mais – um idioma falado por negros.

Comecemos analisando números. Já sabemos que o português é um dos idiomas que apresenta maior projeção de crescimento para as próximas décadas. Até o final do século, a previsão é de que o número de falantes quase dobre, chegando a mais de 500 milhões (número que hoje já ostenta o espanhol). Os países lusófonos africanos serão os grandes responsáveis por esse salto, de acordo com as estimativas demográficas da Organização das Nações Unidas (ONU).

Em linhas gerais, as projeções apontam para 300 milhões de falantes de português entre o conjunto dos países lusófonos africanos. O Brasil seria responsável por outros cerca de 200 milhões. Em Portugal, há uma tendência de diminuição demográfica, e os cerca de 10 milhões atuais baixarão para 8 milhões. Timor-Leste, no final do século, estaria beirando os 4 milhões.

Trocando os números absolutos por porcentagens, nos chama a atenção que, ao longo deste século, os falantes de português europeu representarão cerca de 1,5% do total da lusofonia mundial. É, provavelmente, o idioma europeu que menos falantes terá na Europa em termos percentuais. Ou seja, de europeu mesmo o português só terá a sua origem. Na prática, mais de 98% do idioma estará em geografias bem distantes do solo ibérico. Continuemos com os números.

Segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 57% da população brasileira se declara negra ou “parda” (termo usado para designar os mestiços). São cerca de 115 milhões de brasileiros pretos ou mestiços falantes de português.

Na África, obviamente, nem todos são pretos – temos aí o caso do grande escritor moçambicano Mia Couto, branco de olhos azuis. De todo modo, utilizando aqui o número de 80% como média continental de pessoas negras na África, teríamos, até o final do século, 240 milhões de africanos pretos falando português. Somados aos brasileiros e considerando ainda os timorenses e os portugueses não-brancos, chegaríamos facilmente a um número próximo aos 360 milhões de falantes de português pretos ou mestiços.

Em um universo de 500 milhões, que é o que se estima até o final do século, os falantes de português pretos e mestiços representariam cerca de 75% de toda a lusofonia. Isso nos faz confirmar aquilo que disse o escritor angolano Kalaf Epalanga, autor de Minha pátria é a língua pretuguesa (Editora Todavia, 2023), em recente entrevista ao site Página Cinco, do escritor brasileiro Rodrigo Casarin: “O futuro da língua portuguesa será africano e brasileiro. Será preto”.

Capa de Minha pátria é a língua pretuguesa, de Kalaf Epalanga

Além dos números, a estrutura linguística

Diretamente proporcional ao dinamismo histórico de um idioma é o seu grau de mobilidade e evolução. Eu imagino que línguas como o alemão, o japonês ou o italiano tenham sofrido muito menos mudanças nos últimos séculos quando comparadas a idiomas viajantes e colonizadores como o inglês, o francês, o português ou o espanhol. O contato desses idiomas com as línguas do colonizado ou do escravizado foi feito a partir de forças desiguais, mas, como se de uma amarga vingança se tratasse, o oprimido deixa sua marca irreversível no idioma do opressor. Há quem enxergue nisso um deterioro do idioma original; há, no entanto, os que, como eu, veem nessa relação idiomática uma inestimável riqueza linguística.

O “pretuguês” de Lélia Gonzáles se refere basicamente a isso. O termo serviria para significar o português real falado no Brasil, influenciado por línguas como o iorubá, o bantu, o nheengatu e outros idiomas do tronco tupi-guarani, frente à chamada “variedade de prestígio”, com estritas raízes lusitanas, mais especificamente lisboetas. A permeabilidade do português com tais idiomas de origem africana ou indígena já rendeu e continua rendendo inúmeras análises linguísticas, plasmadas em centenas de livros e artigos acadêmicos. Aqui não é o lugar de aprofundarmo-nos nos detalhes de tão interessante acervo. De todo modo, há alguns fatos curiosos que podemos comentar rapidamente.

Vou me basear sobretudo em um texto da Associação Brasileira de Linguística (Abralin), de autoria de José Lucas Campos Antunes dos Santos, chamado “O pretuguês e a internacionalização da língua e da cultura brasileira – afinal, que língua queremos internacionalizar?”.

Por exemplo, é muito comum se observar no português brasileiro a falta da marca do plural em casos como “Os menino” (em espanhol, “Los niño”), fato que se explicaria pela influência da formação do plural em idiomas do tronco bantu, que se dá de outra maneira, por meio de um prefixo, e não do “s” no final da palavra. Outro exemplo seria “As brusinha” (em espanhol, “Las blusita”). Aí, além da falta do plural, vê-se também a troca do “L” pelo “R”, herança de características fonéticas dos idiomas bantu.

Os exemplos do citado trabalho da Abralin são inúmeros. Entre eles, se elucida a diferença tão flagrante entre o português brasileiro e o europeu no que se refere à pronúncia mais marcada das vogais pelos brasileiros e a omissão de muitas vogais entre os portugueses. Também é tratada a questão pronominal, que tanta desavença causa entre brasileiros e portugueses. Tudo isso teria sua origem na influência dos idiomas americanos e africanos no português.

E muito se engana quem pensa que esse falar brasileiro está presente apenas nas classes que não tiveram acesso ao sistema educativo. Inclusive entre as pessoas ditas letradas, o português que se fala no Brasil dista muito do português europeu. É também um português fortemente marcado pelo histórico de substratos e superestratos indígenas e africanos. Cito brevemente dois exemplos: a queda do “R” final nos infinitivos (“falá” no lugar de falar) e a redução dos ditongos em palavras como peixe (pronunciada “pêxe”), cheiro (“chêro”) ou beijo (“bêjo”).

Depois de tudo isso: o “pretuguês” é o próprio português, é o português vivo e atual falado pela esmagadora maioria do mundo lusófono. O brasileiro ou o africano não falam um português errado; falam um português autêntico, que evoluiu de forma diferente do português europeu.

Falta aos gramáticos e aos produtores de livros didáticos um pouco mais de ousadia para começar a retratar em seus escritos o que realmente acontece com a língua, refletindo em seus trabalhos uma visão mais crítica e adequada à realidade do idioma. Relativizar o conceito de “certo” e “errado”, por exemplo, já seria um bom começo. Esses conceitos devem ser revistos, pois quase sempre podem ser trocados pelos de “adequado” e “inadequado”.

É um pouco penoso que eu esteja aqui, em pleno 2023, tendo que alertar para um fato que já foi evidenciado há mais de um século pelos poetas modernistas brasileiros de 1922, seguidos depois por concretos, neoconcretos, tropicalistas, e, mais atualmente, por alguns letristas de rap muito lúcidos. Oswald de Andrade dizia “Me dá um cigarro”, Arnaldo Antunes imortalizou o “Beija eu” na voz de Marisa Monte, Emicida defende e usa o “pretuguês” em todas as suas letras e declarações.

O “pretuguês” está mais em alta do que nunca. Além de todas as evidências históricas que relatam a idônea influência que nossa língua sofreu em territórios extra europeus – todas elas cientificamente provadas e comprovadas –, temos também o argumento numérico e percentual que corrobora que o “pretuguês” é o futuro da língua portuguesa. Aqui, incluo também o português europeu, que certamente vem se modificando influenciado pelo uso global do idioma.

 

Sérgio Massucci Calderaro

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