Verde na poesia portuguesa

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“Cada rua é um canal de Veneza de tédios

                                                                                E que misterioso o fundo unânime das ruas

                                                                                Das ruas a cair da noite, ó Cesário Verde, ó mestre

                                                                                Ó do “sentimento de um ocidental!”

                                                                                 “Dois excertos de odes” de Álvaro de Campos

 

Verde na poesia portuguesa, exatamente. Verde com V maiúsculo, porque substantivo próprio. Nome de poeta. Nome civil: José Joaquim Cesário Verde. Nome literário: simplesmente Cesário Verde, autor de “O sentimento de um ocidental”, obra prima da lírica lusitana.

Dele é que pretendo falar, muito a propósito, embora sucintamente, neste artigo para o jornal EL TRAPEZIO.

A atualidade da poesia de Cesario Verde tem a ver com seu imediatismo. Obriga o leitor a prestar atenção ao que está acontecendo no momento, em sua pele e em seu coração. E, assim como na época de Cesario Verde, hoje também, nestes tempos de pandemia de Covid, por meio de sonetos, haicais, trovas e formas livres, contamos com a poesia para entender o mundo e como vivemos nele. Mais de um ano após o início da pandemia, quando conceitos como esperança e paciência parecem inacessíveis para tantos dos nossos semelhantes, um simples poema pode levar o ser humano à introspecção de uma forma que poucas outras coisas poderiam fazê-lo. Nesse aspecto, portanto, a lembrança da obra poética de Cesário Verde vale um voto de parabéns, acredito.

ALGUMA BIOGRAFIA

Cesário Verde nasceu em 25 de fevereiro de 1855, na Rua da Padaria, em Lisboa. Seu pai era lavrador e comerciante; chamava-se José Anastácio Verde. Sua mãe: D. Maria Piedade dos Santos. No verão de 1857, para escapar a um surto de peste, a família vai refugiar-se em Linda-a-Pastora; onde José Anastácio possui uma propriedade rural. Esse detalhe produzirá, mais tarde, reflexos na produção poética de Cesário. Em 1872, a família volta para Lisboa, e Cesário passa a trabalhar na loja paterna. Também a atividade comercial condicionará, inclusive, certas características da temática e do estilo do poeta, notadamente no prosaísmo de seu vocabulário.

No outono de 1873, aos dezoito anos, Cesário Verde matricula-se no Curso Superior de Letras, e aí vem a conhecer o futuro crítico literário Silva Pinto, de quem se torna fraternal amigo e que, um dia, será o principal divulgador de sua obra. Já no ano seguinte, Cesário começa a publicar seus primeiros versos, primeiro no “Diário de Notícias”, depois em outros jornais e revistas. Sofre ataques do “Diário Ilustrado”, e é duramente criticado por vários escritores, dentre eles Ramalho Ortigão. Mas, ao mesmo tempo, é acolhido pelo grupo de literatos que se reúne em casa do Conde de Macedo Papança, na Travessa da Assunção.

Cesário Verde não gozava de boa saúde e o pai, já idoso e cansado, preocupado em afastá-lo da vida boêmia lisboeta, transferiu-lhe a administração da quinta de Linda-a-Pastora cuja extensão territorial crescera consideravelmente. E lá se foi o poeta, no ano de 1878, arvorado em gentle-farmer, cuidar dos pomares paternos, afastando-se, temporariamente, da literatura, entretendo-se com outra espécie de frutos, menos líricos e mais tipicamente burgueses. Ainda assim, consegue publicar, em 1880, a coletânea de poemas ”O sentimento de um ocidental”, que é bem recebida pela crítica.

Um dos sonhos de Cesário Verde era conhecer Paris. E, em 1882, vale-se da oportunidade de exportar vinhos para a França e realiza a desejada viagem, indo até Bordéus, destino da produção vinícola de sua quinta. Pretendia, de volta a Lisboa, retornar ainda uma vez à França, mas o surto de uma epidemia de cólera, com os consequentes efeitos de uma quarentena, frustrou-lhe os planos. Permanece, então, em Portugal, alternando suas atividades mercantis com a frequência aos meios literários de Lisboa e dedicação à própria poética. Em 1885, porém, agravou-se rapidamente o seu estado de saúde e ele começou a definhar, combalido pela tuberculose, que o assediava desde a idade juvenil. No verão de 1886, no Paço do Lumiar, aos 19 de julho, Cesário Verde veio a falecer, sem haver publicado sequer um livro. Somente no ano seguinte, 1887, por iniciativa de seu grande amigo Silva Pinto é que surgiu à luz a primeira edição de “O Livro de Cesário Verde”.

A POESIA DE CESÁRIO

Os primeiros contatos que tive com a poesia de Cesário Verde remontam aos meus tempos de estudante ginasiano, através de um poema intitulado “De tarde” e incluído nas páginas de uma antologia colegial. O poema dizia assim:

Naquele piquenique de burguesas,

     houve uma coisa simplesmente bela,

     e que, sem ter história nem grandezas,

     em todo o caso dava uma aguarela.

                      Foi quando tu, descendo do burrico,

                      foste colher, sem imposturas tolas,

                       a um granzoal azul de grão-de-bico,

                       um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,

nós acampamos, inda o Sol se via;

e houve talhadas de melão, de damascos,

e pão-de-ló molhado em malvasia.

                     Mas, todo púrpuro a sair da renda

                      dos teus dois seios como duas rolas,

                      era o supremo encanto da merenda

                      o ramalhete rubro das papoulas!”

 

O tom idílico do quadro e a simplicidade da linguagem com que, através de palavras tão familiares, o poeta o descrevia, impressionaram-me de chofre e desde então aguardei a oportunidade mais ampla para conhecer melhor o autor. Somente agora, em pleno inverno da vida, é que pude deliciar-me com o restante de seu surpreendente universo lírico, graças à leitura de um volume da EDIOURO, publicado em 1987, contendo as poesias completas de Cesário Verde, organizadas por Osmar Barbosa. Partindo dessa leitura, entreguei-me a buscas e pesquisas sobre a obra do poeta, e dessa amorosa curiosidade pude colher informações que me apresso a repassar para o paciente leitor.

Aprendi, por exemplo, que:

– Cesário Verde, se não é o maior poeta entre os da fase realista, é o mais original deles, uma vez que, por sua personalíssima inspiração e linguagem desempenhou papel relevante na evolução da poesia em língua portuguesa. Numa época em que os poetas cantavam o amor

– “O sentimento de um ocidental” denuncia em Cesário Verde um lírico insatisfeito, visionário de espaços e belezas que viriam a ser conhecidos de um Fernando Pessoa e um Mario de Sá Carneiro, que, desse modo, podem ser considerados realmente seus discípulos ou continuadores (Massaud Moisés, in A Literatura Portuguesa através dos textos – Ed. Cultrix/ São Paulo, 1968)

– É o primeiro poeta português que tem uma inequívoca vocação realista, sem os verbalismos dos seus contemporâneos ou a pieguice dos ultrarromânticos.

Segundo alguns críticos, Cesário Verde, esse poeta quase sem precedentes nem continuadores em Portugal, assimilando o que aprendera com Baudelaire, descobre a beleza enérgica, a riqueza química do sangue dos operários enfarruscados e seco dos arsenais, ou de um cardume de varinas, ou do tinir do granizo do aço dos calceteiros, e de toda uma cidade viva, por vezes num desejo absurdo de sofrer: com o enjôo do gás extravasado, o chorar do piano das burguesinhas, o arrepio de um dezembro enérgico e sucinto, com o sol espelhado nas poças da chuva recente, os passos da patrulha, o toque das grades nas cadeias, os clarões das lojas nas naves das ruas, uma hortaliceira regateando para o pão, uma engomadeira tuberculizando e sem ceia, os focos infecciosos da febre amarela… tudo isso expresso pelo poeta com uma linguagem e uma formulação novas, numa época do avanço científico e tecnológico (Grande Enciclopédia Delta-Larousse, Ed. Delta S/A, Rio de Janeiro, 1970).

PROVA DOS NOVE

Considerado como verdadeiro precursor do Modernismo em Portugal, Cesário Verde escreveu poemas que são reportagens poéticas e sua linguagem se caracteriza – no dizer de Celso Pedro Luft – pelo vocabulário prosaico, mas preciso, pela adjetivação e pelas imagens sugestivas. Sua arte de casar substantivos com adjetivos inesperados lembra a de seu contemporâneo, mestre do romance, Eça de Queiroz: “desgraça alegre”, “cheiro salutar e honesto a pão no forno”, “lívido flagelo” e outras combinações do mesmo tipo. Nota-se que sua poética revela alto senso da estrutura poemática, virtuosismo verbal e preocupação parnasiana pela perfeição dos versos, sendo os seus decassílabos e alexandrinos dos mais acabados e esculturais da língua, na opinião do mesmo dicionarista.

Transfiro à argúcia e ao mesmo senso crítico do estudioso leitor a tarefa – aliás bem divertida – de localizar, nas estrofes adiante estampadas, esses traços do estilo e da temática de Cesário Verde:

“Faz frio. Mas depois duns dias de aguaceiro,

vibra uma imensa claridade crua.

de cócoras, em linha, os calceteiros,

com lentidão, terrosos e grosseiros,

calçam de lado a lado a longa rua…”

(do poema CRISTALIZAÇÕES)

 

“Nas nossas ruas, ao anoitecer,

há tal soturnidade, há tal melancolia,

que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia

despertam-me um desejo absurdo de sofrer…”

(do poema AVE-MARIA)

 

“Balzac é meu rival, minha senhora inglesa!

Eu quero-a porque odeio as carnações redondas!

Mas ele eternizou-lhe a singular beleza

e eu turbo-me ao deter seus olhos cor das ondas…”

(do poema FRÍGIDA)

 

“Lembra-te tu do sábado passado,

do passeio que demos, devagar,

entre um saudoso gás amarelado

e as carícias leitosas do luar?”

(do poema NOITE FECHADA)

 

“Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre

e o Cólera também andaram na cidade,

que esta população, com um terror de lebre,

fugiu da capital como da tempestade

 

Ora, meu pai, depois das nossas vidas salvas,

(até então nós só tivéramos sarampo),

tanto nos viu crescer entre uns montões de malvas

que ele ganhou por isso um grande amor ao campo…”

(do poema autobiográfico NÓS)

 

EPÍLOGO

O nome e a poesia de Cesário Verde ficaram muito tempo relegados ao esquecimento. Espero ter prestado razoável serviço às letras luso-brasileiras, festejando, como o acabo de fazer, esse inesquecível acervo poético, parte de uma obra que está merecendo, sem dúvida alguma, uma releitura e uma revisão, para exemplo e descoberta de novos talentos, Aquém e Além-Mar.

 

Savio Soares

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