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“Dizem que sou o marinheiro mais velho do campo de Canela”. Aos seus 91 anos, José Antonio Sayago é a memória viva das terras do Guadiana, as de “Maria, la Portuguesa”. As terras de Espanha e Portugal hoje unidas pelo rio.

José Antonio nasceu na Extremadura e chegou a Ayamonte (Huelva, Espanha) “com 6 ou 7 anos, para cuidar das vacas”. Mas só o campo não dava para viver, pelo que se lançou ao mar assim que conheceu Carmen.

Jornaleiro de dia e marinheiro de noite. A sua vida deu para muito. Conhecia o estuário do Guadiana como a palma da sua mão; trabalhou na horta, nos grandes galeões e nas barcaças.

E Carmen aguardava. Às vezes até três dias, porque os barcos ficavam no mar. “Estava atenta, sempre à espera, e distinguia o motor do barco ao longe”, recorda.

Eram os tempos em que as famílias dos pescadores viviam nos armazéns do porto. Todas juntas, separadas apenas por tecido colocado com cordas.

“Eu conheci a luz elétrica quando tinha mais de 20 anos”. Há coisas que não se esquecem.

A sua memória prodigiosa enriquece “Território Museu”, uma iniciativa para recuperar o património imaterial da região integrada no projeto EuroGuadiana2020, que engloba a espanhola Ayamonte e as suas vizinhas portuguesas Castro Marim e Vila Real de Santo António.

Um plano que conta com um orçamento de 1 milhão de euros cofinanciado com fundos Feder através do Programa de Cooperação Transfronteiriça Interreg Espanha-Portugal (POCTEP).

Uma ponte moderna une desde os anos 90 as duas margens do Guadiana, e um ferry substitui os batelões que cruzavam o rio. A Eurocidade trabalha hoje para recuperar a sua história comum e o seu património.

Longe ficam as ditaduras ibéricas -Francisco Franco em Espanha e António de Oliveira Salazar em Portugal- e os tempos de “guardinhas” e guardas civis nas ribeiras do Guadiana.

E longe estão também os anos do contrabando e as tragédias no rio, como a inspirada por “Maria, la Portuguesa”.

“Nas noites de lua e cravos/ De Ayamonte até Vila Real/ Sem rumo pelo rio, entre suspiros/ Uma canção vai e vem”.

ATRÁS DO MITO DE MARIA, LA PORTUGUESA

A criação do espanhol Carlos Cano (1946-2000) nasceu de um drama que agitou as aldeias do Guadiana.

Em 1985, um “guardinha” português matou a tiros Juan Flores, um pescador espanhol que transportava marisco de contrabando. Uma mulher velou sozinha o corpo em Portugal até à sua trasladação a Ayamonte.

A misteriosa mulher de luto inspirou o fado de Cano, que fala de noites, de contrabando e de amores. Na realidade, nem havia romance, nem se chamava Maria nem era portuguesa. Mas a lírica foi mais forte e o tema ficou ligado a estas terras para sempre

O contrabando era uma saída para sobreviver. A distribuição da pobreza. Juan Flores foi chorado por espanhóis e portugueses.

“Era quando se pescava o lagostim”, recorda José Antonio. E o camarão, o caranguejo e a sardinha… “E também se passava café, açúcar, farinha, feijão…”

DE BICICLETAS A “LIVROS DO ESTRAPERLO”

“A mercadoria passava escondida entre a roupa das mulheres nos barcos que cruzavam o rio”, relata o poeta português António Cabrita, remontando a meados do século XX.

Também os “candongueiros” portugueses passavam vultos nas margens. “Quando a maré desce, pode-se passar a pé, é só preciso saber onde”, esclarece José Antonio.

“Eu nunca passei contrabando”, ressalta. E entre as suas memórias está o português que lhe propôs passar gelado de creme espanhol a Vila Real; ou o ciclista de Ayamonte que desafiava a guarda: “Nunca o conseguiram descobrir. Levava peças de bicicleta de um lado ao outro. Estavam aí, à vista”. E ri-se enquanto o conta. Engenho em tempos de miséria.

Com os anos, o “catálogo” estendeu-se a berços, pratos “Duralex”, esfregonas e até sementes de melancia, recorda Carmen.

António Cabrita também sabe de contrabando, pois cresceu a ouvir as histórias do seu avô -“comerciante de fronteira”- sobre “as relações de fronteira, mas sem fronteira”: Portugueses e espanhóis pescavam juntos, iam à missa nos dois países, casavam-se…

Ou assentavam-se no país vizinho, como aconteceu como Luzía Gomes, mãe do melhor guitarrista flamenco contemporâneo, Paco de Lucía, ou Paco de la Portuguesa, como era conhecido em Castro Marim, a terra materna.

“Era uma fronteira muito porosa. Não havia rivalidade entre a população. E era uma terra muito esquecida”, continua Cabrita, membro do “Poetas do Guadiana”, um grupo de escritores de ambos países que reivindica a cultura comum e que tem inclusivamente uma coleção chamada “Livros do Estraperlo” em homenagem a este capítulo da história raiana.

OS CAMINHOS DO GUADIANA, TERRITÓRIO MUSEU

A entrada de Espanha e Portugal na União Europeia mudou tudo. Os vizinhos ibéricos deixaram de estar de costas viradas e avançaram em modelos de desenvolvimento conjunto, tais como as Eurocidades que hoje se estendem de ambos os lados da Raia, a fronteira mais longa -1.200 quilómetros- e a mais antiga da Europa.

As memórias do contrabando, o passado comum, o património imaterial do Baixo Guadiana é muito rico. Tal como a arquitetura, desde a fortaleza de Castro Marim, até às igrejas de Ayamonte ou ao racionalismo da Praça de Pombal em Vila Real.

Muitos são os tesouros da Eurocidade do Guadiana, que avança na ideia de “Território Museu” para resgatar este património que “em termos culturais e sociais é quase idêntico”, diz Pedro Pires, técnico municipal de Castro Marim.

E não se trata apenas de uma revisão do passado. É também presente e futuro. Como a tradição das minas de sal de Castro Marim, ainda hoje um dos motores de crescimento da região, que marcou um modo de vida, ou a indústria conserveira de Ayamonte e Vila Real.

“Castro Marim tem o melhor sal do mundo”, ostenta Pires, que se deleita com a riqueza da reserva natural que se estende até à vizinha Vila Real e na rota marítima que os três parceiros da Eurocidade do Guadiana partilham, e que inclui os pântanos que alimentam linces, garças e flamingos.

Tesouros do Baixo Guadiana que não se podem esconder atrás de muros, daí a ideia de desenhar rotas temáticas que transformem o próprio território num “museu natural” alargado aos três municípios.

Uma proposta animada e mutável que se completa com uma agenda cultural e de lazer comum divulgada semanalmente, em espanhol e português, na rádio local.

E AQUELES BAILES

Este ambicioso projeto não podia ser construído sem a memória dos autênticos protagonistas da História: jornaleiros, salineiros, conserveiros, pescadores…

Tal como José Antonio e Carmen, que vivem no solar do velho armazém, em Canela, agora convertido numa confortável casa cercada de margaridas.

São muitas memórias, e muitas fotos, organizadas num álbum que José Antonio mostra com orgulho. Quase um século numas quantas páginas.

“Aqui com os colegas no galeão”, e o pescador aponta para uma imagem a preto e branco que mostra um grupo de jovens sorridentes apinhados num barco. “Já nenhum é vivo”.

A poucos metros, velhas barcas anunciam que o rio está ao virar da esquina. Tão perto como as ruínas do quartel da Guarda Civil de Canela, à beira do Guadiana, olhando para Castro Marim.

“Estavam lá para vigiar os portugueses e o contrabando”, ilustra José Antonio.

“E também faziam bailes. E vinham muitos portugueses”, diz Carmen. “Faziam muitos bons bailes”.