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O sonho de um Portugal “de costas voltadas” (“de espaldas”) do resto da península é apenas um sonho onírico que pulula no subconsciente de uma pequena parte do nacionalismo português. Isto é algo de irreal no tempo em que vivemos.

Ficaram as reminiscências, algo sangrentas, que têm impedido, por exemplo, o arranque do comboio de alta velocidade, entre Lisboa e Madrid, o que acabaria por se tornar o mais rentável e prático da Europa.

Durante décadas falou-se na “invasão económica” de Portugal pela Espanha. Isto é certamente um equívoco, pois o que na realidade aconteceu foi uma importante integração económica da península. Esta integração foi impulsionada pela liberdade de mercado e pela harmonização, a todos os níveis, que a União Europeia trouxe. Este movimento é uma ideia em que os fluxos económicos fazem parte de um todo que favorece o todo.

A importância económica do projecto europeu é bem conhecida. No entanto, a Europa tem uma projecção específica e diferenciadora na Península Ibérica, uma vez que no plano económico se gerou uma verdadeira União Ibérica, verificável nos números.

A publicação conjunta do Instituto Nacional de Estatística de Espanha e Portugal, intitulada “A Península Ibérica em Números” (https://www.ine.es/prodyser/pubweb/pin/pin2019/), oferece-nos todos os anos todos os tipos de dados. É um trabalho magnífico onde qualquer um pode consultar as estatísticas do território; população; Educação; Saúde; condições de vida; mercado laboral; indústria; Comércio; transporte…

Deste grande volume de dados fixamo-nos no comércio entre os países ibéricos. O fluxo anual de compras de Portugal a Espanha é de 14.657 milhões de euros e as vendas estão nos 23.689. Para Espanha, Portugal é o seu quarto cliente e o seu sétimo fornecedor. Para Portugal, Espanha é o seu primeiro cliente e fornecedor.

Para avaliar a importância do relacionamento económico entre estes países, calculamos alguns parâmetros:

Portugal reserva 11% do seu PIB anual para comprar da Espanha. Espanha tem apenas 1,12% do seu PIB para abastecer-se com Portugal. Embora a economia espanhola tenha um volume seis vezes maior que a portuguesa, falando de uma forma proporcional há um desequilíbrio significativo.

Portugal vende 6,7% da sua economia para a Espanha. A Espanha vende para Portugal 1,8% do seu PIB; o que é proporcionalmente superior às vendas de Portugal.

As vendas de Portugal para a Espanha são 18 vezes superiores às do Brasil e mais que o dobro da França e da Alemanha, segundo e terceiro clientes em Portugal. Nesta linha, as compras feitas por Portugal a Espanha são 7,6 vezes superiores às do Brasil; quatro vezes quando falamos da França e mais que o dobro da Alemanha.

As vendas da Espanha para Portugal são um pouco maiores do que as do Reino Unido (que tem uma população seis vezes maior). Estas vendas são 3,5 vezes superiores às realizadas com a China.

Estes dados colocam em relevância a grande interdependência e integração dos países ibéricos, que têm uma relação singular não comparável em importância a que têm com os restantes sócios da UE.

Uma interdependência que tende a aumentar mas ainda tem um longo caminho a percorrer. Isto porque comércio significa riqueza para ambas as partes. São fluxos económicos que permanecem na península e na Europa; permitindo a independência e a soberania produtiva. A soberania produtiva que, como destacou a crise sanitária da Covid-19, é absolutamente necessária pois afecta a segurança dos nossos países.

No entanto, apesar do significativo volume de comércio ibérico, a fronteira representa ainda um obstáculo muito importante ao desenvolvimento. Para corroborar esse axioma, uma informação é suficiente. Como já dissemos, Portugal vende para o resto da península e ilhas espanholas, cerca de 14.000 milhões de euros, quando outras regiões ibéricas como a Catalunha e a Andaluzia vendem 60.000 e 50.000 milhões, aproximadamente.

A economia portuguesa tem um enorme potencial de crescimento na Península Ibérica. Para atingir o nível da Catalunha, poderia multiplicar por quatro as suas exportações para toda a Espanha, o que sem dúvida ajudaria a aproximar o nível de salários e rendimentos per capita de Portugal com a Espanha. Assim, as empresas portuguesas têm o seu principal local de expansão em Espanha. Entidades como a empresa de energia EDP ou a empresa comercial “A loja do gato preto” são um bom exemplo disso.

A economia espanhola tem em Portugal um lugar perfeito para completar a expansão das suas empresas, adquirindo assim uma dimensão Ibérica a partir da qual podem entrar e competir nos principais mercados europeus. Mercados como o francês, o inglês, o alemão e assim o resto do mundo. Esse foi exactamente o caminho percorrido pelo Inditex-Zara, a empresa europeia de maior êxito dos últimos 30 anos.

Para poder seguir avançando, é necessário continuar eliminando obstáculos burocráticos ao comércio e à mobilidade laboral das pessoas, que ainda persistem. Além disto, é necessário favorecer a infra-estrutura logística, como temos insistido no EL TRAPEZIO.

No actual contexto de crise económica e com a disponibilidade de recursos do Plano de Recuperação Europeu, o desafio é fazer investimentos coordenados rapidamente, dando preferência ao sucesso e a eficiência que melhoram as sinergias ibéricas.