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Nas últimas décadas, com as oportunidades que a entrada na União Europeia trouxe, o desenvolvimento dos transportes e a expansão da internet criou uma autêntica Sociedade Civil Ibérica. Esta “nova sociedade” pode ser vista nos âmbitos empresariais, culturais, desportivos e sociais, já que ajuda a impulsionar a identidade desta nossa península. Trata-se de um movimento social espontâneo e em constante crescimento que avança de uma maneira natural e integra as sociedades espanhola e portuguesa.

Este movimento inclui associações que têm consciência iberista e se declaram herdeiros do iberismo do século XIX, e outras que actuam em âmbitos concretos de cooperação.

Entre as primeiras temos o Movimento Partido Ibérico, a Associação Iberista, a Plataforma para a Federação Ibérica e a Associação Sociedade Iberista. Também existe o partido político Ibérico-Iber, que recentemente obteve representação nas eleições locais do município de Puertollano. Ao contrário do ocorrido no século XIX, onde a ideia iberista iniciou-se nas elites políticas e intelectuais, estas novas entidades são de base cidadã, o que lhes oferece uma outra legitimidade. Na sua actividade, O TRAPÉZIO tem realizado uma primeira aproximação através de uma série de artigos sobre a “História do Iberismo“.

Existem muitas outras organizações de actuação Ibérica ou associações privadas sem fins lucrativos que trabalham pela e desde a península. Da análise efectuada pelo O TRAPÉZIO, destacamos as seguintes:

– Fundação Rei Afonso Henriques (www.frah.es), em funcionamento desde 1994 e com sedes em Zamora e Bragança. A sua finalidade é potenciar a cooperação ibérica na matéria de desenvolvimento transfronteiriço e institucional. A fundação desenvolve uma agenda de actividades de primeiríssimo nível e que incluem projectos turísticos, de formação, de estudo e de desenvolvimento socioeconómico. Destaca-se também a sua emblemática sede em Zamora, ao lado do Convento de São Francisco.

– Associação de amigos de Portugal em Espanha (http://www.amigosportugal.es), foi fundada em 2004, em León, e é dedicada a desenvolver os laços de amizade e solidariedade com pessoas, entidades e instituições públicas e privadas em ambos os lados da raia. Realizaram quatro edições do Prémio de Amizade Hispano Portuguesa, obtendo uma notável repercussão pública.

– Associação Festival Raíz Ibérica (www.raiziberica.eu), foi fundada em 2015 e funciona para promover, recuperar e divulgar o folclore e a raiz cultural dos povos da Península Ibérica. Organizaram 4 edições do muito interessante Festival Raíz Ibérica, com conferências, música, etnografia e artesanato. A última edição aconteceu em 2018.

– Associação [email protected] (www.todaviasostenible.org), nasceu em 2003 e têm um objetivo específico a conservação e a divulgação do interesse cultural da linha férrea de Arribes-Douro. Levam a cabo um intenso trabalho reenvidicativo e de valorização do espaço geográfico das chegadas ao Douro.

– Associação Centro de Estudos Ibéricos (www.cei.pt), com sede na Guarda, foi uma ideia do ensaísta português Eduardo Lourenço. Este é um centro com uma importante projeção e nível académico. É promovido pelas universidades de Coimbra e Salamanca, realizando desde 1999 uma extensa actividade cultural. De grande relevância é o Prémio Eduardo Lourenço.

– Associação dos amigos do Couto Misto (www.galeguizargalicia.gal), persegue a recuperação da memória histórica do antigo país independente localizado entre a província de Ourense e Trás-os-Montes. A cada ano organiza uma comemoração de grande interesse, com a nomeação de “Juízes Honorários do Couto Misto”.

Associação de professores de língua portuguesa na Espanha (www.aplepes.org), a missão desta associação é promover o intercâmbio entre os profissionais dedicados à disseminação da língua e cultura dos países de língua portuguesa. No ano de 2019, desenvolveram na Universidade Complutense o bem sucedido II Fórum Internacional de Língua Portuguesa, a 500 anos do desvio mundial.

– Fórum Galaico Trasmontano (http://forum-galaicotransmontano.blogspot.com/), foi constituído, em 2002, em Chaves como um fórum de estudo e divulgação do património cultural e social da área fronteiriça do rio Támega. Publicaram vários números da Revista Fórum.

– Associações de Portugueses em Espanha: segundo os organismos de emigração são mais de 30. A destacar o Fórum dos Portugueses, que desenvolve encontros institucionais ao mais alto nível.

– Associações de Espanhóis em Portugal, revisitamos o histórico Xuventude da Galiza – Centro Gallego de Lisboa, fundado em 1908, que mantém aberto um restaurante muito conhecido. Interessante também é a Associação de Mães e Pais do Instituto Espanhol de Lisboa, destinada a estudantes do Instituto Espanhol de Lisboa. Além disto, de aspecto sectorial, existe a Associação dos Profissionais de Saúde de Portugal, focada nos 3.000 profissionais de saúde espanhóis residentes no país. Por fim, citamos a Associação de mulheres profissionais espanholas em Lisboa, que favorece o desenvolvimento das carreiras profissionais dos residentes espanhóis em Lisboa.

– Associações da Raia, existem diversas entidades ligadas ao território fronteiriço, entre as mais activas está a Associação para o Desenvolvimento da Serra da Gata (ADISGATA) e a portuguesa Associação para o Desenvolvimento do Interior Raiano (ADIRAIA).

No âmbito empresarial funcionam desde há décadas a Câmara de Comércio Hispano-Lusa em Portugal e em Espanha, para além das associações empresariais de fronteira, muitas delas integradas na Rede Ibérica de Entidades Transfronteiriças. A RIET é a organização de maior importância para a cooperação Hispano-Lusa.

Como aspecto menos positivo, está a falta de apoio institucional específico ao movimento associativo ibérico e a inexistência de uma normativa europeia para as entidades sem ânimo de lucro. O tecido associativo é nutrido, mas o seu funcionamento ainda está bloqueado pela fronteira, pelas barreiras burocráticas e por certos preconceitos ancestrais. No entanto, o equilíbrio geral é bom e estimulante.

 

Pablo Castro Abad é editor-adjunto de O TRAPÉZIO e licenciado em Ciências do Trabalho