Don Ramón: convite à originalidade

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Ramón Gómez de la Serna, o inventor das “greguerías”, foi, sem dúvida alguma, um dos mais férteis e engenhosos autores da Literatura Espanhola do século vinte, contemporâneo de Garcia Lorca, Jorge Guillén, Pedro Salinas, Gerardo Diego e Vicente Alexandre.

Nascido em 1888, em Madrid, mostrou-se de uma precocidade espantosa, publicando aos dezesseis anos de idade o seu primeiro livro – intitulado “Entrando em fogo”. Em 1915, fundou a famosa tertúlia ou agremiação literária de Pombo, que se converteria no foco da vanguarda da época.

Escritor de rara fecundidade, escreveu para jornais, revistas e livros, enquanto sobre o lombo de um elefante ou balançando-se num trapézio, para os espectadores de um circo, proferia suas “conferências de maleta”. Passou a ser considerado, em seu tempo, o profeta de uma arte nova. Dotado de um humorismo muito peculiar, muito seu, informa Juan Ruiz Pena – defendia a independência e o sentido transcendental da arte. Era um madrilenho cem por cento, de espírito eternamente jovem.

A atitude estética de Ramón Gómez de la Serna, o “ramonismo”, era interpretada como a perda da noção do gênero literário. Teatro, novelas, biografia ou ensaio, eram para Ramón simplesmente modos diferentes de acumular greguerías. Sua arte atingiu o grau que se poderia chamar de humorismo puro, uma espécie de desumanização absoluta, do absurdo total. Enfim, um retrato da anarquia espiritual que caracterizava aquela época – as primeiras décadas do século XX, na Europa.

Quanto às “greguerías”, o próprio Ramón dizia o seguinte: “Desde 1910 eu me dedico à greguería”. Daí em diante a greguería é, para mim, a flor de tudo: “o que fica, o que vive, o que mais resiste à descrença”.

É uma breve revelação súbita que, em virtude de um desusado modo de relacionar idéias ou coisas, nos ilumina uma visão nova de algo. “O grito confuso dos seres em sua inconsciência, o grito das coisas”… Fórmula: humorismo + metáfora + metafísica = greguería.

Definido o gênero, vamos aos exemplos que selecionei e traduzi para o leitor:

– Graças às gotas de orvalho, a flor tem olhos para ver a beleza do céu.

– As zebras são, diretamente, cavalos nascidos para os carrosséis.

– Um papel ao vento é como um pássaro ferido de morte.

– No frufru do vôo das pombas, percebe-se que vão cheias de anáguas de plumas.

– O galo canta numa língua muito anterior ao sânscrito, a primitiva língua em que o ensinaram a cantar.

– As lágrimas são tão efêmeras que nenhuma jamais chegou a ser diamante.

– Todas as estrelas têm hora diferente. Em uma delas é ontem; em outras, é hoje; e em outras, é há vinte séculos.

– No sanatório do amanhecer, operam o dia que nasce e ligam a veia do hoje com a veia do amanhã.

– A palmeira é um monumento ao foguete.

– Tanto frio fazia naquela noite, que a lua embaçara a vidraça do céu com o bafo da sua boca.

– As cinzas dos cigarros que ficam entre as páginas dos livros velhos são a melhor imagem do que restou, neles, da vida daquele que os leu.

– A serpente mede o bosque para saber quantos metros tem e, depois, dizê-lo ao anjo das estatísticas.

– As gaivotas nasceram dos lenços que dizem adeus nos portos.

– Os zeros são os ovos dos quais nasceram as demais cifras.

– A mulher que desce por uma escada de caracol parece ter sido despedida do Paraíso.

– O lenço de seda é o adeus de uma carícia.

– Ao mexermos o açúcar no fundo de uma xícara, move-se o doce sorriso do café.

– Os marinheiros dos barcos a vela são harpistas dos ventos.

– Cruzou elefantes com vacas e saíram touros com chifres de marfim.

– O galo do cata-vento bica o milho das estrelas.

– Na crista do galo esta-se vendo a tesoura do Criador dando-lhe os últimos retoques.

– A gasolina é o incenso da civilização.

– O domingo está cheio, primeiro, de laranjas com que brincam as crianças; e depois, das cascas dessas laranjas.

– Quando correm muito, as nuvens parecem que acodem pressurosas a um incêndio que se declarou no horizonte.

– Viaja na Lua, todas as noites, um clandestino que não comprou passagem.

– A andorinha é uma flecha mística em busca de um coração.

– Escrever com o lápis é marcar apenas a sombra das palavras.

– Quando nos arames farpados saírem rosas, terão acabado as guerras.

– O cisne mete a cabeça debaixo da água para ver se há ladrões embaixo da cama.

– As rosas rasgam suas cartas de amor.

– Movia-me e fazia gestos diante do espelho, mas me refletia imóvel. O espelho ficaria paralítico.

– As galinhas bicam o terreiro como se comessem pedaços de estrelas caídos do céu.

– O livro que achata a flor entre as suas folhas converte-a em uma borboleta.

– Beijar nas pálpebras é como dar sepultura aos olhos.

– O leão tem na ponta da cauda o pincel de barba.

– A Lua carrega máquina fotográfica, mas somente gasta uma chapa quando vê um crime.

– As andorinhas bordam no céu de seus vôos o manto que pensam dar de presente à Virgem.

– Há uma resposta à Lua nas vacinas das mulheres formosas.

– Pressão arterial: o sangue quer brotar como um repuxo alegre na taça de sua fonte.

 

Nota final: Ramón Gómez de la Serna transformou todos os gêneros literários através das “greguerías”, inclusive sua famosa novela “O toureiro Caracho”. Casado com uma argentina, ele viveu, de 1936 até 1963, ano de sua morte, em Buenos Aires. Em 1948 escreveu sua autobiografia, com o seguinte título: “Automoribúndia”.

 

Savio Soares

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