Socorro, querem fragmentar o português!

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As diferenças atuais entre o português europeu e o brasileiro justificam que essas duas variantes se separem oficialmente como se fossem dois idiomas distintos?

Não é de hoje que existem correntes favoráveis à separação do português brasileiro das demais variantes do português, principalmente o europeu, como se fossem duas línguas diferentes. No Brasil, as propostas chegaram até o nível legal: em 1935, o debate ganhou estatuto de projeto de lei (que não foi aprovado); em 1946, a separação foi cogitada para que figurasse na Constituição, decretando que o idioma nacional se chamasse “brasileiro” (a ideia também foi rejeitada). Mas o tema perdura. Na atualidade, há inclusive ilustres linguistas que defendem essa fragmentação.

Entre os argumentos, encontramos não somente motivações linguísticas, mas também políticas, ideológicas e sociais, no intuito de afirmação de identidades nacionais por meio da nomeação de um idioma próprio. Tudo isso pode ser muito bonito dependendo do ponto de vista, mas, na minha opinião, não faz o menor sentido, pelo menos por enquanto (quem sabe faça sentido daqui a 100 ou 200 anos).

Linguisticamente, a separação não se sustenta. O idioma é o mesmo. No Brasil e em Portugal (e nos outros sete países lusófonos), os pronomes são os mesmos, os verbos e suas flexões são as mesmas, os advérbios, substantivos e adjetivos são os mesmos, salvo algumas poucas expressões. Em Portugal, “legal” é “giro”, “abacaxi” é “ananás”, “trem” é “comboio” e “te amo” é “amo-te”, mas isso também acontece dentro do próprio Brasil, onde “mexerica” é “bergamota”, “pão francês” é “cacetinho” e “capaz” é “nem fodendo”, dependendo da região. Essas nuances não são suficientes para separar um idioma do outro. O problema é que muitos estudiosos se debruçam exclusivamente nas diferenças, deixando de lado todo o acervo comum.

Acho ótimo que as diferenças entre o português europeu e o português brasileiro sejam evidenciadas e descritas pelos gramáticos. São variações que devem ser explicadas e estar acessíveis a qualquer um que tenha interesse em sabê-las. As dessemelhanças pontuais, no entanto, não deveriam nos levar a um afã de diferenciar todo o sistema idiomático. Diferentes do português são, sem dúvida, o espanhol e o galego, nossas duas línguas mais próximas. Mesmo com muito em comum, são claramente outras. Basta ver a lista de elementos tão importantes como os pronomes ou as flexões verbais para notar a distância que separa o espanhol e o galego do português.

Português falado, o calcanhar de Aquiles

Entre os favoráveis à fragmentação, o argumento de mais peso reside na comparação da oralidade. Realmente, dependendo do emissor, pode ser difícil para um brasileiro compreender o português europeu falado. É deveras sabido que o português brasileiro é mais vocalizado se comparado ao europeu, que costuma “comer” as vogais. Está aí o grande dilema. Mas, no fim das contas, é uma simples questão de ouvido. Há que se acostumar com o sotaque diferente.

(Um parêntesis: quando me mudei do Sudeste para o Sul do Brasil, tive de início certa dificuldade de compreensão do português lá falado, principalmente com interlocutores mais velhos e de bairros rurais. O problema foi se dissipando em poucas semanas. Bastou me acostumar com a fonética e com algumas expressões locais).

Essa questão aparentemente tão banal é na verdade fundamental e pode explicar muita coisa: o brasileiro tem dificuldade de entender o português europeu simplesmente porque, ao longo da sua vida, praticamente nunca escuta o português europeu. No Brasil, não consumimos cultura portuguesa (com exceção talvez da literatura; mas, claro, o texto escrito não evidencia a fonética). No meu caso particular, o único artista português que me vem à mente quando penso na minha infância é o caricato Roberto Leal cantando “ai bate o pé, bate o pé, bate o pé”.

Por outro lado, a quantidade de produtos culturais brasileiros consumidos pelos portugueses é enorme e vem de longa data. A partir dos anos 50, com a bossa-nova, a música do Brasil invadiu os lares portugueses e continua sendo muito ouvida por lá. As telenovelas são outro fenômeno de grandes proporções, difundindo léxico, sintaxe e fonética brasileiras em terras lusitanas. E, mais recentemente, há muitos produtores de conteúdo das redes sociais que vêm influenciando crianças e adolescentes portugueses – gerando inclusive queixas de pais mais tradicionais, desesperados ao verem seus filhos adotarem termos e fonética brasileiras em seu linguajar; mas isso já é outra história.

Enfim, o foco da questão não é exatamente a diferença fonética entre Brasil e Portugal, que obviamente existe, mas sim o desequilíbrio no intercâmbio cultural entre os dois lados do Atlântico. Isso não se resolve separando as duas variantes por decreto. A solução seria gerar uma maior e mais igualitária circulação de produtos culturais, que poderia se dar tanto por meio de iniciativas privadas quanto por políticas públicas entre os dois países ou, melhor ainda, entre os nove países da Comunidade do Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Por exemplo: eventos exitosos como o Prêmio Camões de Literatura poderiam ser estendidos aos campos da música, do teatro, do cinema ou dos audiovisuais. Imaginem como seria interessante termos festivais de música ou de cinema voltados exclusivamente às produções dos países da CPLP.

Fragmentação, um desastre estratégico

Questões linguísticas e culturais à parte, a separação dessas duas variantes do português seria também um desastre estratégico em termos sociopolíticos. A Língua Portuguesa, que hoje vem chegando à cifra de 300 milhões de falantes e que, segundo a ONU, tem previsão de alcançar os 400 milhões nas próximas décadas, se veria, de um momento a outro, dramaticamente mutilada.

A diminuição de sua força conjunta nos faria perder importância em todos os grandes organismos internacionais – e quem perde voz também acaba perdendo voto. Importantes órgãos de coesão geopolítica da lusofonia e inclusive da iberofonia, como a própria CPLP ou a Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI), sofreriam duros golpes e teriam que repensar e redesenhar suas estruturas.

O “idioma brasileiro” continuaria ostentando bom número de falantes (mais de 200 milhões), mas perderia um de seus maiores atrativos atuais, que é o caráter pluricêntrico. Seria uma língua falada apenas em um território, um só país e um só continente. Do lado português, a queda seria vertiginosa em muitos aspectos (número de falantes, alcance geográfico, importância nos principais fóruns mundiais…). E, sinceramente, prefiro nem imaginar qual seria o futuro do idioma na África, mas tenho o receio de que, sem a unidade formada por Brasil e Portugal, ele poderia até se esfacelar e perder terreno para outras línguas, sejam as locais, sejam as europeias utilizadas em países vizinhos.

Por isso peço socorro, pois vejo que a unidade da Língua Portuguesa começa novamente a sofrer uma onda de ataques. O que mais me preocupa é ver entre os detratores alguns linguistas de renome, gente que eu estudei e que sempre admirei.

É mais ou menos natural que a evolução da Língua Portuguesa em nove países diferentes, de geografias e realidades tão distantes, nos leve fatalmente a uma separação no futuro. Mas, por enquanto, não. Ainda não vejo motivos nem sequer argumentos sólidos para a fragmentação. Todos falamos, lemos e escrevemos em português, ainda. Unamo-nos, pois, a favor da nossa língua.

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Um post scriptum para fazer justiça ao meu amor pela cultura de Portugal: depois do já comentado Roberto Leal da minha infância, é claro que conheci muitos mais músicos portugueses: Madredeus, Xutos e Pontapés, Mariza, Carminho, Cuca Roseta, Salvador Sobral, António Zambujo, entre outros. Isso sem falar na Literatura, que me renderia aqui uma extensa lista.

Termino com um belo exemplo da nossa união. O fado “Saudades do Brasil em Portugal”, composição musical do fadista português Homem Cristo, traz letra do brasileiro Vinícius de Moraes e foi gravado por ninguém menos que Amália Rodrigues. Amália e Vinícius são dois dos maiores monumentos à cultura lusófona e à Língua Portuguesa. Aqui, vemos a interpretação de Cuca Roseta:

Curiosidade: o famoso cantor espanhol Pablo Alborán também interpreta essa canção de maneira magistral, cantando em perfeito português!

Sérgio Massucci Calderaro

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